Neste trabalho problematiza-se o uso público da palavra nos espaços da democracia participativa de Porto Alegre. Pretende-se apreender, de forma particular, a maneira como a arte retórica é empregada estrategicamente por líderes comunitários que atuam na Região Centro do Orçamento Participativo (OP) da cidade. Pensado como uma modalidade específica de capital simbólico que agrega valor às performances discursivas, o uso público da palavra individual contribui para a compreensão dos processos representativos e de mediação política que orientam a participação popular, assim como dos significados simbólicos e subjetivos atribuídos ao exercício da política. Metodologicamente, a etnografia privilegia, através da observação participante, os itinerários de um desses líderes comunitários, demonstrando como suas competências lingüísticas o conduzem à ação, articulando e conectando uma diversidade de agentes e instituições sociais: são espaços-tempo como o Conselho do OP (COP), o Fórum Regional do OP (que acompanho desde 2007), associações de camelôs e o novo Centro Popular de Compras de Porto Alegre. Os resultados das investigações indicam que as relações de poder da liderança são constituídas em contextos de disputa e negociação, envolvendo líderes e grupos sociais concorrentes, de um lado, e dispositivos estatais, como o Ministério Público, a Prefeitura e a Câmara Municipal de Vereadores, de outro. Nesse sentido, a apropriação e o uso recursivo de uma arte retórica nos discursos performáticos são fundamentais para a construção da reputação do líder comunitário. Igualmente, contribuem para a manipulação e conversão de outros capitais simbólicos – como o social e o político – que, articulados pela fala do líder, o autorizam a fazer uso público hegemônico da palavra, em nome de seus interlocutores, na mediação e representação política dos interesses de sua comunidade.
AUTOR: Moisés Kopper - Bolsista Pibic/CNPq